quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
As Bolsas Térmicas
É, do cheiro. Que-cheiro-bom. Na hora em que elas chegaram na sala, o ambiente ficou impregnado com aquele cheiro de escola, de jardim, de ginásio na época em que ginásio era ginásio (nem sei como chama agora), um cheiro de plástico, meio de livro novo que a gente ficava encapando na mesa da cozinha com a mãe nas férias de janeiro, meio da lancheira que ia cheia de Toddynho, bisnaguinha e bananada. O melhor cheiro de plástico do mundo.
Uma delícia a sensação, aquela coisa boa de sentir uma época boa que já foi, sabe? Um gostinho, um lampejo de uma fase tão gostosa e fácil e simples, cheia de alegrias e pequenos prazeres, de brincadeiras e músicas do Balão Mágico, jogos e paquerinhas de pegar na mão.
Flashback total. Tudo por causa de um pedaço de plástico que já já vai estar cheio de cerveja, batida de coco e Smirnoff Ice. Quase tão bom quanto Toddynho, bisnaguinha e bananada....
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Vem Tia Bú
Ela pede colo, me conta da escola, do Biel, me faz comidinha de barra de cereal, gargalha gostoso e sai numa corrida de passicos desengonçados e gritinhos de alegria. Eu desenho nenê, peixe, cachorro para ela, faço ela girar e jogo nas almofadas uma, duas, duzentas vezes. A gente corre prá lá, corre prá cá, importuna o Luke, imita o Michael Jackson, ela fala dez, cem palavras novas enquanto cresce cachinhos quase loiros e ri para mim um risinho maroto meio de lado, irresistível.
Ela adora a lua, ou melhor, a ula.
Ela já sabe de tudo.
Não existe mau humor ou tristeza que resistam a essa mocinha piquita de olhos enormes cheios de docura e mãozinha gorducha com cinco minhoquinhas para cima dizendo vem tia Bú...
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 8, Capítulo 4

Essa história começa aqui: http://derrubandoparedes.blogspot.com/2009/11/folhetim-vagabundo-historia-8-capitulo.html
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Sempre tive uma vontade estranha de acabar os meus dias mergulhando no ar em direção ao por do sol, uma coisa bem estilo Thelma & Louise, carro voando, sorrisão na cara, linda. Mas e coragem?
Pois é, agora, mundo acabando, xeque-mate geral, esse me pareceu o jeito perfeito de encerrar os trabalhos por aqui. Eu só precisaria preparar o carro, dar um jeito na cara, nas vestes, no todo, encontrar um desfiladeiro de frente para o sol avermelhado e... Voar. Esse seria o meu ritual, o meu grand finale. Ah como seria lindo... Não fosse a impossibilidade completa de andar meio metro com o carro pela rua. Aparentemente a ficha da galera havia caído de vez e o povo resolveu pirar, fazer o que desse vontade e mandar as regras sociais e as normas de trânsito às favas.
É, o meu final poético mergulhando para o por do sol não ia rolar. Resignada, desci do carro e saí andando pelas ruas em direção à minha casa, olhos, nariz e ouvidos atentos como nunca, aguçados pelo caos ao meu redor e pela sensação de presenciar tudo pela última vez. Gritos, sirenes, vozes em oração, choros, motores de avião e o céu avermelhado me invadiam por todos os lados e me preenchiam o peito e eu, inexplicavelmente, estava absolutamente calma. Como é estranha e poderosa a aceitação do fim.
Andei e andei e andei, vi as cores inéditas sob o céu carmim, olhei em olhos como nunca havia feito, chutei as poças, pisei descalça na grama, tomei sorvete sujando o rosto e a roupa, cantei alto pela rua, cocei a barriga do cachorro sarnento da esquina e gargalhei feito doida, braços abertos, cabeça baixa, girando e girando e girando até a tonteira não me deixar mais de pé, e então à minha frente surgiu a minha casa.
Girei a chave e entrei dando uma última olhada no resto de mundo às minhas costas. Um fiapo quase arrebentado de mundo que logo seria poeira cósmica ou sei lá o quê, mas isso também não faria a menor diferença. O mundo deixaria de ser mundo e só. Ponto final.
Fui deixando as roupas pelo caminho em direção ao banheiro, enchi a banheira branca, acendi as velas ao redor, escolhi cuidadosamente o CD e apertei o play.
[Ouça a partir daqui: http://www.youtube.com/watch?v=qOVwokQnV4M ]
A melodia começou a soar enquanto os meus pés, pernas, nádegas, o meu corpo todo submergia e era envolvido pela água morna levemente perfumada. A penumbra do banheiro seria o cenário perfeito, Bach a trilha mais linda que eu poderia ter e eu juro que nunca havia sentido tanta paz. Mergulhei a cabeça até colocar os ouvidos dentro da água, fechando os olhos e deixando as notas ressoarem filtradas pelo líquido, distantes, etéreas, massageando o peito e me carregando para um estado de quase inconsciência quando de repente... Péééééé. A campainha.
Quem seria àquela hora de fim do mundo?
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O fim, aqui: www.olhosrecemnascidos.blogspot.com
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 7, Capítulo 3

O início da história você encontra aqui: http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/11/folhetim-vagabundo-historia-7-capitulo.html
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Ana Clara sentia o coração batendo tão forte em seu peito que parecia que ele iria escapar-lhe pela boca, o ritmo acelerado deixando-lhe completamente sem chão. Ele sente saudade, sente saudade... Ele sente a minha falta. Não se lembrava de palavras doces como essas sendo jamais pronunciadas pelos lábios de seu pai. Ao menos não em relação a ela. Sempre Mariana. Mas agora Mariana não estava lá, eram apenas os dois, pai e filha, como no início, e ele sentia a sua falta, apesar do telefone, apesar dos incômodos, apesar de todas as suas faltas e incompetências, apesar de....
Ana Clara sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
O pai suspirou profundamente, fechou os olhos e limpou a garganta.
- Eu sempre segui suas pegadas na areia da praia. Seguia-as de longe, pelas janelas do escritório, uma a uma. Sua alegria ao brincar só, chutando ondas e deixando suas marcas pelo caminho me alegrava os dias e me lembrava de como eu também costumava deixar minhas pequenas pegadas na areia fofa e olhar para trás, orgulhoso de ter transformado aquilo tudo.
Ana Clara nunca soube que era observada. Sempre fizera de tudo para conseguir a atenção do pai, sem imaginar que a tinha sem esforço a cada vez que corria despreocupada, vento no rosto, pela praia. De olhos fechados e com a sensação da brisa fresca tocando-lhe a pele, ouviu o pai continuar.
- Ela precisa saber que sempre foi a minha inspiração, Mariana. Precisa saber que a distância entre nós nunca foi intencional, que eu simplesmente não sabia como vencê-la. Eu era um homem muito ocupado, contido, as barreiras pareciam para mim intransponíveis e justamente por isso eu entendo, hoje, aquele beijo.
Ana abriu os olhos e sentiu o coração subir-lhe à garganta. Sabia que era disso que se tratava, teriam ali, no leito de morte do pai, a conversa que nunca tiveram a coragem de iniciar ao longo da vida.
Lembrava-se perfeitamente do dia em que entrara no escritório do pai ao entardecer e encontrara-o dormindo estirado no sofá de couro marrom. Aproximou-se cuidadosamente, ajoelhou-se ao seu lado e sentiu uma vontade enorme de tocar-lhe a face. A necessidade de contato chegava a doer. Ana Clara inclinou-se lentamente para beijar-lhe a fronte e, sem perceber claramente o que fazia, tomou-lhe os lábios em um beijo calmo, sentido, de alma. O pai chegou a retribuir-lhe o beijo, acariciando-lhe os cabelos, até que abriu os olhos, reconheceu-a surpreso e, indignado, afastou-a definitivamente. Ironicamente naquele momento ela só conseguia pensar se seu pai percebera que ela havia fumado, ou se o chiclete mentolado que sempre mascava antes de entrar em casa havia dado conta do recado.
Mal sabia ela da repercussão que aquele simples beijo teria e do tamanho do abismo que criaria entre eles. Mal sabia ela, também, que aquele seria o seu único beijo, que os únicos lábios que sentiria contra os seus ao longo da vida seriam sempre os de seu inatingível pai.
Jamais tocaram no assunto. Jamais. Aquele fim de tarde ficou escondido em suas memórias, entalado em suas gargantas, disfarçado entre os móveis da casa, suspenso sobre a mesa de jantar.
E então mãos trêmulas tomaram as suas, olhos úmidos de reconhecimento miraram-lhe fundo na alma e os mesmos lábios, agora ressecados e murchos, moveram-se para dizer-lhe algo, sendo porém interrompidos pelo bipe estridente dos monitores da UTI. Olhos nos olhos, mãos trêmulas ficaram pesadas, lábios se contorceram e uma lágrima de despedida escorreu pela face pálida e enrugada do grande doutor, ao mesmo tempo em que a porta do quarto se abria para deixar entrar duas enfermeiras apressadas e uma assustada Mariana.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Café com Queijo
O trabalho do Lume é lindo, resultado de uma viagem feita pelo norte do país em que eles conheceram muita gente, viram de tudo, comeram de tudo (até café com queijo...) e criaram um espetáculo de retalhos, uma colagem das figuras pelo caminho, uma representação super sensível daqueles homens e mulheres e suas histórias, vozes, cantos.
O gestual impressiona. A face, a curvatura da coluna, os movimentos da mão, o timbre, o sotaque, os dedos do pé, tudo muda a cada pessoa ali apresentada, a cada pessoa que entra no foco e fala com você olhando no olho, cantando, contando causo.
Sentados em círculo, bebendo da cachaça distribuída e cantando junto, nós, o público, escutamos e interagimos com as figuras trazidas de longe por aqueles atores geniais, olhares espalhados pela sala se cruzam, se reconhecem e compartilham seus próprios cantos e causos. A colcha de retalhos colorida ao redor, envolve e delimita, agrega e ilumina.
Dez anos depois de sua criação, Café com Queijo tem um frescor e uma verdade impressionantes. Aquelas figuras estão ali conosco, vivas, passe o tempo que for. O segredo? Para mim é um trabalho porreta de ator, o exercício diário da busca dos porquês e a lembrança de homens e mulheres que provavelmente já se foram, mas que a cada vez que se acendem as luzes rodeadas por aquela colcha de retalhos, voltam a existir, a contar seus causos e a inspirarem gente, enquanto a peça acontecer, por onde Café com Queijo passar.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Moedinha
- Estou sim, Ro. Estou fazendo Désir.
- Ah, qual é essa? A da moedinha?
- Da moedinha??? Que moedinha?
Não lembrava de peça minha com moedinha nenhuma....
- Aquela em que vocês jogavam moedinhas de chocolate...
- Ah..... Bits. Nossa mulher, de onde você desenterrou isso. Eu fiz essa peça em 2004!
- Pois é, eu nunca esqueço e a Pam também não. Ela amou. Mesmo. Gostou tanto que guarda a moedinha até hoje, acredita?
Uôu.
- Tá brincando?
- Tô nada. A moedinha tá lá na caixinha de lembranças boas dela, junto com outras coisas que marcaram.
- Nossa menina, não sabia. Há quanto tempo que eu não vejo a Pam. Manda um beijão pra ela, saudade. Fala para ela cuidar bem daquela moedinha, foi mesmo uma época boa...
Eu sei que sou uma patife e tals mas eu tive que respirar fundo para não sair de lá de olho vermelho. Mexeu comigo aquilo. Como as coisas que a gente faz continuam agindo e reverberando nas vidas por aí... Aquela peça tosquinha e divertida, um monte de cenas de musicais da Broadway que a gente gostava, unidas por uns textinhos explicativos, umas micagens e muito carão fez a diferença para alguém além de nós mesmos. A cena da moedinha era Money, Money, feita com uma “coreô” gozação total. No fim a gente jogava moedinhas de chocolate para o público, uma bobeira, um agradinho... Quando é que eu ia imaginar que alguém ia guardar aquilo como uma lembrança especial?
Fazendo arte a gente espalha moedinhas por aí sem perceber...
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 6

Capítulo 1
Corria loucamente.
O baço doía, os peitos siliconados sacudiam e se embolavam dentro do sutiã pontudo, o ar que entrava em seu corpo com um chiado rouco não lhe era mais suficiente mas corria mesmo assim. Precisava correr.
Enquanto seus pés esmagavam folhas secas e melecas da floresta, revivia os acontecimentos da noite em sua cabeça loira platinada. Como foi mesmo que tudo chegara àquele ponto? A espiada pelo buraco da fechadura, o beijo, os barulhos ininteligíveis, o cheiro forte de charutos e leite de rosas...
Olhou para trás e a visão dos três homens vestidos de palhaço lhe perseguindo era realmente surreal. Aquilo estava parecendo um filme trash das madrugadas da Band, exceto pelo fato de que ninguém seria tão retardado a ponto de imaginar e escrever uma história daquelas.
Continuava a correr enquanto pensava na sorte que tinha por estarem usando sapatos de palhaço. Isso lhes atrasava um pouco e lhe permitia manter a dianteira, mas não poderia correr para sempre.
A luz da lua e os ruídos da mata tornavam a cena ainda mais dramática. O esforço extremo lhe consumia e estava a ponto de desistir quando avistou ao longe uma pequena cabana com as luzes acesas, e então correu ainda mais.
Precisava desesperadamente de ajuda.
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Não perca a fantástica continuação dessa história amanhã, aqui: http://www.impressoesemdesalinho.blogspot.com/
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 5, Capítulo 2

A história começa aqui: http://olhosrecemnascidos.blogspot.com/
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Ele.
Sentiu um latejar nas têmporas e o sangue ferver-lhe as veias. Caraca. Isso nunca havia lhe acontecido antes. Os rostos que surgiam de seus traços eram sempre desconhecidos, conjuntos de olhos, boca, nariz e pêlos que não lhe diziam nada. Até hoje. Hoje, ao olhar aquele todo, o conjunto de traços repentinamente passou a ter voz, cheiro, lugar, som.
Ele.
Poderia encerrar o caso ali, naquela sala, naquele instante. Bastaria anotar no canto da folha um endereço. Sim, isso seria o certo a fazer, o óbvio, mas estranhamente o óbvio não lhe agradava. A figura tranqüila à sua frente, aqueles olhos rabiscados no papel, o frio na boca do estômago. Alguma coisa não se encaixava naquele cenário. Além disso, a descarga de adrenalina que lhe invadiu os poros era absolutamente deliciosa e o óbvio a fazer certamente poria fim a tudo, trazendo de volta o tédio que lhe permeava os dias.
Balançou a cabeça, suspirou fundo e seus olhos se cruzaram com os da mulher que acendia outro cigarro. Familiar. A figura lhe era mesmo familiar, já vira aqueles olhos, aquela boca, aquelas formas. Ela lhe chamara atenção anteriormente, apenas não conseguia encaixá-la no ambiente a que pertencia. Observava os detalhes, seus olhos treinados de desenhista esquadrinhavam a mulher à sua frente em busca de pistas e então ela viu a pequena estrela tatuada no dorso da mão que segurava o isqueiro. Lembranças daquela mesma estrela lhe levaram ao seu elevador, mão tatuada apertando o botão do andar acima do seu.
Ela.
Agora lembrava-se bem. Haviam se cruzado duas ou três vezes entre entradas e saídas do prédio de Helena. Mas não poderia ser, ela e ele então se conheciam. E o estupro denunciado? Havia certamente mais a saber do que a mulher à sua frente escolhera dizer à polícia e Helena pretendia descobrir.
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Continua aqui: http://www.impressoesemdesalinho.blogspot.com/
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 4, Capítulo 3

Essa história começa aqui: http://portudoquesinto.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-historia-4-capitulo.html
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Tudo começou três anos, dois meses e vinte e um dias antes, naquele fatídico 29 de setembro de 2009. A idéia aparentemente inofensiva, a proposta irrecusável, chegou por e-mail para os escolhidos que a acataram sem terem a menor noção de onde estavam se metendo, do caminho que trilhariam a partir dali.A aceitação da proposta havia sido o divisor de águas nas vidas daquelas seis pessoas, o ponto de virada, o início de uma jornada fantástica jamais imaginada.
A proposta? A criação de um folhetim semanal escrito a 12 mãos, um autor por dia continuando a história escrita até então. Nascia naquela data o revolucionário Folhetim Vagamundo.
Acontece que o projeto alcançou instantaneamente uma popularidade nunca antes vista. A genialidade das histórias, o formato atípico, os desvios de pensamento, as mentes brilhantemente deturpadas, os temas esdrúxulos, os elementos recorrentes e a forma de inteiração entre os autores arrebataram e arrebanharam leitores em todo o globo. Os capítulos diários passaram a ser aguardados ansiosamente pela gigantesca e crescente legião de seguidores fiéis. Revistas, documentários, encartes jornalísticos, filmes hollywoodianos, grupos de discussão, páginas na Wikipedia, tablóides, programas de TV e uma infinidade de formatos de mídia dedicaram-se a cobrir incansavelmente o projeto. Os textos, escritos originalmente em português-brasileiro, passaram a ser traduzidos para milhares de idiomas e dialetos e lidos em todos os confins do planeta.
Diz-se inclusive que a ânsia generalizada pela leitura do famoso folhetim levou a Internet a lugares até então desprovidos de conexão. Sim, o folhetim espalhou o progresso, ampliou mentes, quebrou paradigmas e transformou os 6 escritores em ídolos mundiais, mais conhecidos do que Madonna, Michael Jackson, o Papa, a mulher melancia, o Obama e a Barbie juntos. As mentes brilhantes e as personalidades cativantes, aliados aos dotes físicos inquestionáveis dos autores, transformaram-nos nas celebridades mais cultuadas do universo, verdadeiros líderes popintelectuais com direito a bonequinhos articulados, álbuns de figurinhas e fã clubes enlouquecidos.
Para não se entediarem com o folhetim, os 6 magnânimos decidiram ao longo do tempo desafiarem-se, sacaneando-se mutuamente, provocando-se e colocando-se em situações aparentemente insolúveis. Assim, os capítulos passaram a contar com finais absolutamente inesperados, com a conjunção de objetos sem nexo como frutas estragadas, partes de animais, líquidos com lactobacilos vivos e instrumentos inusitados. A cereja do sundae passou a ser, então, a sinuca de bico criada e a expectativa pela saída para o imbróglio a ser proposta pelo próximo participante.
Nos três anos que se seguiram o projeto continuou a todo o vapor, aproveitou o potencial inesgotável daquelas mentes brilhantes e extrapolou as fronteiras da escrita, criando obras fantásticas variadas como sinfonias, esculturas, castelos de areia, musicais da Broadway, quadros de pontilismo, cartoons, coreografias, peças de teatro, ballets de repertório e ainda desvendando a maioria das grandes questões não resolvidas da humanidade. Até onde se sabe, mesmo os críticos mais exigentes passaram a dividir a história da arte em antes (Era Clueless) e depois do folhetim (Era Vagamúndica).
Ocorre que em 2012 o medo do fim do mundo se espalhou pelo planeta. Tudo culpa de uma profecia do avançadíssimo calendário Maia e da história número 3 do Folhetim, aquela clássica do sonho de Deus. Pois é, o bicho pegou e a humanidade pirou na batatinha mesmo. Pânico generalizado. Caos. De acordo com a profecia a data fatídica seria 21 de dezembro de 2012. O que lhes restava como último recurso? Pedir arrego às 6 mentes folhetinescas, aos líderes intelectuais, aos únicos que poderiam com o seu brilhantismo reinventar a roda, desvendar o mistério e, na pior das hipóteses, deixar como legado uma última obra de arte tão perfeita e bela que seria tida pelo porvir como o emblema de uma raça extinta avançadíssima.
O que nos leva de volta às 11:01 daquela manhã de 20/12/2012...
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 3 - O Imbróglio no Meio de Tudo

Abriu a porta do quarto e esgueirou-se por debaixo das cobertas até aconchegar-se no colo ossudo da mãe. Não disse nada, não precisou. Ela sempre o compreendera, sempre soube o que pensava, o que sentia, e naquele dia não seria diferente. Mãos alisaram cabelos desgrenhados e Matheus Ricardo adormeceu um sono nervoso sob os olhos atentos da mãe.
E veio o sonho. Deus entediado, o anjo fofo taurino, o fim do mundo por vir, redemoinhos de substância amorfa, o buraco negro. Quando avistou os olhos da pessoa que chegou chegando, acordou assustado, a testa encharcada e outras partes também. Sua mãe sorriu um riso terno: - Matheus Ricardo, Matheus Ricardo – ela amava o som do nome que havia escolhido para o filho, nunca dizia só Matheus ou só Ricardo, os dois nomes juntos tinham a sonoridade perfeita - molhando a cama de novo? Ô meu menino...
Seguindo as dicas de seu terapeuta de anos, Matheus Ricardo anotou os detalhes do sonho, descreveu as nuvens, as conversas. Aquilo havia sido muito intenso e certamente escondia uma lição, uma dica, um sinal. Dona Jacintha, limpando os líquidos da cama já cheia de manchas de tons amarelados diversos, pensava em como solucionar a sinuca de bico em que o filho se encontrava.
Quando Maura Rúbia apareceu, achou que os problemas amorosos de seu pimpolho estivessem finalmente solucionados. Ela era perfeita, pensou. O nome duplo de sonoridade perfeita, o gosto pelo jogo de tranca, pelas conversas sobre testes de revistas femininas, a personalidade forte, racional, decidida... O gênero. Finalmente Matheus Ricardo deixaria daquela besteira de brincar de gogo boy com os amigos de peito depilado, namoraria uma fêmea de boa família e lhe daria um neto.
Acontece que nos últimos tempos a relação não estava mais como antes. A química, a afinidade, as conversas sobre os testes de revistas, os jogos de tranca, nada mais lhe dava o prazer de antigamente. Seis anos haviam se passado e Jacintha sentia que sua relação com Maura Rúbia havia se esgotado, e que assumirem um compromisso àquela altura seria um erro terrível. Para completar, Matheus Ricardo voltara a ter amigos depilados, de cabelos esquisitos, lenços de estampa xadrez, ipods com músicas eletrônicas e cds de musicais norte americanos. E então Carlos Frederico apareceu. Desde que o jovem alto, estilo Gianecchini, surgira na vida de seu filho, os dois não se desgrudaram mais. Matheus Ricardo voltou a assobiar canções do ABBA, a treinar seus passos de gogo boy, voltou a sorrir e à noite só se ouvia o nome de Carlos Frederico povoando seus sonhos. Aquele seria mesmo o seu caminho e ela, Jacintha, como uma boa mãe, teria de entender.
Os conflitos do filho, porém, permaneciam. Ele achava que tinha uma dívida para com a sociedade, para com Maura Rúbia e insistia na realização do noivado. Comprara as alianças no dia anterior e chegara dizendo que faria o certo. À noite se encontraria com Carlos Frederico para dar-lhe a notícia e seguiria o seu destino ao lado da mulher que seria a nora perfeita para sua mãe.
A noite com Carlos Frederico começara perfeita. Falaram sobre tudo, boates, os lançamentos da Broadway, o timbre da Barbra Streisand, a SPFW, as tendências em cortes de cabelo. A conversa fluía fácil, olhares se encontravam, mãos se tocavam, a companhia era boa, o interesse genuíno. Uma coisa levou a outra, o vinho alterou os estados e a noite acabou com os dois exauridos e satisfeitos na horizontal. No auge do aconchego, Matheus Ricardo deu a bombástica notícia a Carlos Frederico de que iria se casar com Maura Rúbia e de que já havia até comprado as alianças.
Indignadíssimo e com o coração ferido, Carlos Frederico fez a louca e saiu desembestado pela rua, aos prantos, echarpe esvoaçando às suas costas. Matheus Ricardo na janela acenava, pedia perdão e limpava o nariz nas cortinas de voal. Do outro lado da rua Maura Rúbia observava imóvel a interação.
Sem esboçar qualquer reação, pegou o celular e apertou a discagem rápida número 2. Esperou.
- Alô. Maura Rúbia?
- Que cena bichesca foi essa agora, Matheus Ricardo? Olha eu aqui do outro lado da rua. Eu vou ligar para a sua mãe.
Desligou e apertou a discagem rápida número 1.
Sem reação, Matheus Ricardo fechou as cortinas, encolheu-se em posição fetal e esperou a exaustão trazer-lhe o sono. No quarto ao lado, enquanto ouvia os desaforos da mulher que seria sua nora, Jacintha tomou uma importante decisão.
Os sinais do sonho do filho sobre o Todo Poderoso, o tédio divino e o fim do mundo vieram apenas dar-lhe força para que tomasse as atitudes que sabia ter de tomar. A felicidade de seu filho guiaria seus passos.
Deus Todo Poderoso, por seu turno, teve no sonho do filho de Jacintha os sinais de que precisava para sair da sinuca de bico em que Ele próprio, o Magnânimo, se encontrava. Sabia agora o que teria de acontecer e gostava do que estava por vir. Gostava muito da idéia. Novos ares, pensou, ares de inexistência lhe fariam bem.
Preocupava-lhe apenas a questão não resolvida da pessoa que chegaria chegando...
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